Recentemente escrevi um artigo sobre a geração Z e o comprometimento que enxergo em muitos jovens. Hoje vou falar sobre o que tenho observado e aprendido com os mais velhos em processo de sucessão e a complexidade emocional que envolve o processo de envelhecer e de “passar o bastão” . Existe dor, alegria e uma coragem imensa envolvidas nessa transição,
As emoções contraditórias da sucessão
Acompanho pessoas com mais de 70 anos que carregam uma energia vibrante, uma vontade genuína de fazer acontecer e que continuam a contribuir de maneira ativa nas organizações onde atuam. São homens e mulheres que viveram décadas moldando organizações, liderando projetos e inspirando equipes. Até que chega o momento em que percebem que é hora de dar espaço para outra geração. Não a dos jovens que estão começando agora, mas para aqueles que estão na faixa dos 40 ou 50 anos — uma geração que já adquiriu experiência e maturidade suficientes para assumir grandes responsabilidades.
Presencio, a emoção de homens e mulheres que, mesmo prontos para recuar, sentem a dor por chegar o momento de deixar de contribuir tão ativamente quanto gostariam. Recentemente, participei como conselheira de um evento voltado a presidentes e conselheiros de associações empresariais e uma cena me marcou profundamente: o palestrante subiu ao palco celebrando que, enfim, havia conseguido fazer a sucessão da sua empresa. Ele compartilhou com a plateia a dificuldade, a resistência interna e os desafios emocionais que enfrentou durante o processo, mas também deixou claro como aquilo foi importante – para ele, para sua organização e para a continuidade do trabalho que tanto amava. Foi um momento de aprendizado coletivo, pontuado por um misto de celebração e saudade.
O peso emocional da sucessão também me lembra de um painel sobre tendências de liderança, do qual tive a oportunidade de participar. O mediador, visivelmente com mais de 70 anos, conduziu a discussão com uma maestria única. Com perguntas provocativas, ele tirava os palestrantes do lugar-comum, desafiando-os a aprofundar suas reflexões e a ir além das respostas óbvias. Sua autoridade não vinha apenas da idade, mas da sabedoria acumulada e da certeza de que as pessoas precisam tanto de estímulo quanto de espaço para fazer a diferença com o conhecimento que possuem. Ao final, depois de elevar significativamente o nível do debate, ele encerrou com o reconhecimento de forma individual pelo diferencial de cada palestrante, enriquecendo o momento com generosidade e respeito. Esse episódio ficou como uma lembrança vívida de como a experiência e a liderança podem iluminar e inspirar, mesmo em contextos de transição.
A importância da empatia e do respeito
O processo de sucessão não é apenas técnico; ele exige um nível profundo de empatia e respeito de ambas as partes. Para quem assume, é fundamental reconhecer o valor e o legado de quem está saindo. Não é apenas sobre ocupar uma posição; é sobre valorizar o trabalho de uma vida e continuar construindo sobre bases sólidas.
Para quem está deixando o cargo, cada decisão vem acompanhada de sentimentos conflitantes: orgulho pelo trabalho realizado, mas também o medo de ser esquecido ou de perder relevância. Essas emoções precisam ser acolhidas, não ignoradas. O respeito por essas histórias de vida é essencial para que a transição seja feita de forma saudável.
Uma nova forma de liderar
O que aprendi, tanto na prática quanto ao observar grandes líderes e suas transições, é que a liderança nunca se aposenta por completo. Ela apenas se transforma. Mesmo que o dia a dia exija um recuo ou uma mudança de papel, ainda há muitas formas de contribuir. Conselhos, mentoria e apoio estratégico são apenas alguns exemplos de como a experiência acumulada ao longo de décadas pode continuar a impactar positivamente as organizações e a sociedade.
Por outro lado, a nova geração que assume o bastão precisa estar preparada para ouvir e aprender com aqueles que vieram antes. A liderança não é um ato solitário. É um diálogo entre gerações, entre experiências e perspectivas.
Celebrando as transições
Ao final, o que mais me emociona ao testemunhar esses processos de envelhecimento e sucessão é a beleza do ciclo que se completa. A dor de sair se mistura com a alegria de compartilhar o aprendizado e celebrar a vida. É uma troca contínua, que exige coragem e generosidade de todos os envolvidos.
Que possamos continuar celebrando essas transições com sensibilidade, respeitando a história de quem pavimentou o caminho e acolhendo com entusiasmo quem está pronto para dar seus próprios passos. Afinal, a liderança é um legado vivo, que só cresce quando compartilhado.
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